Só 26% das franqueadoras usam IA estruturada — e 75% já têm chatbot
Pesquisa ABF com 419 redes mostra adoção ampla de IA, mas uso estruturado em poucas. O gargalo do franchising não é testar IA — é padronizá-la em escala.
O franchising brasileiro vive um contrassenso com a inteligência artificial: quase todas as redes já usam IA em algum ponto da operação, mas poucas usam de forma estruturada. O levantamento "Uso da IA pelas Redes de Franquias", da ABF (Associação Brasileira de Franchising), ouviu 419 franqueadoras que juntas operam 64.060 unidades — cerca de 32% do setor, que em 2025 movimentou R$ 301,7 bilhões em 202 mil operações.
O resultado: 75% das redes usam chatbots e assistentes virtuais, 71% usam IA generativa de texto — mas apenas 26% descrevem um uso estruturado da tecnologia. Entre testar e padronizar, há um abismo que define quem escala com IA e quem apenas tenta.
A adoção é ampla; a estruturação, não
Quando o assunto é ter a ferramenta instalada, o retrato da pesquisa ABF é de um setor adiante da média. Além dos chatbots (75%) e da IA generativa de texto (71%), as franqueadoras aplicam IA principalmente em:
- Marketing — 83% das redes usam IA nessa função, o maior índice de todos
- Materiais e conteúdos internos — 62%
- Atendimento — 55%
- Apoio à decisão — 41%
A leitura dos números é clara: a IA entrou no franchising pela ponta mais visível (comunicação e marketing) e ainda está longe do centro de decisão. Pouco mais de 4 em cada 10 redes usam IA para apoiar decisões — e aí mora a diferença entre automação e inteligência aplicada ao negócio.
Testar não é o problema; o problema é estrutura
O dado mais revelador da pesquisa não é o percentual de uso — é a distribuição do uso por nível de estruturação. O levantamento separa as redes em três grupos:
- 37% estão na fase de testes, com IA sendo avaliada em iniciativas pontuais
- 22% usam IA de forma não estruturada, sem processo definido
- 26% usam IA estruturada, com método, padrão e governança
Somados, testes e uso não estruturado chegam a 59% das redes — e é exatamente aí que o valor da IA se perde. Uma franqueadora que usa IA generativa para escrever um anúncio em uma unidade e não replica o padrão nas outras cem não está usando IA; está usando um atalho.
O gargalo de quem opera em escala
O franchising é, por definição, um negócio de replicação: 202 mil operações com a mesma marca precisam entregar a mesma experiência. É o cenário ideal para IA — e, ao mesmo tempo, o mais exigente.
Para quem franqueia, IA não é só automação de tarefa: é ferramenta de consistência de marca e de decisão. Um chatbot de atendimento que responde diferente em cada unidade destrói o que a franquia vende. Uma IA de apoio à decisão que sugere preço, estoque ou promoção com base em dados da rede inteira — e não de uma loja isolada — é outra categoria de tecnologia.
O risco implícito na pesquisa: as redes estão automatizando o que já faziam, sem repensar o processo. Resultado: mais volume, mesma inconsistência.
O que um founder faz com esse retrato
O gap entre "testes (37%)" e "uso estruturado (26%)" é, para quem constrói produto, um mapa de mercado. Três movimentos possíveis:
- Governança de IA para franqueadoras. Uma camada que padroniza prompts, regras e guardrails da marca em todas as unidades — o franqueador empacota, o franqueado executa. É o produto que ataca diretamente os 59% que estão entre testes e uso solto.
- IA de apoio à decisão com dados da rede. Diferente do marketing — onde a IA entrou —, a decisão (preço, mix, reposição) ainda é território aberto, com só 41% de adoção. Quem entrega recomendação com dados consolidados da rede vende para um setor de R$ 301,7 bi.
- Padrão de atendimento em escala. Os 75% que já usam chatbot precisam que o assistente fale a mesma língua da marca em milhares de unidades — consistência de experiência é o produto.
Conclusão
A pesquisa ABF conta uma história otimista para quem constrói: o franchising brasileiro já aceitou a IA — a infraestrutura de convencimento está feita. O que falta é o produto certo para o problema certo: mover as redes da fase de testes e do uso solto para a estruturação. Quem resolver esse meio-termo vende para um setor de 202 mil operações que já sabe que quer IA — e ainda não sabe como padronizá-la.
Fonte: Franquia.com.br — "Franquias e inteligência artificial: dados e gestão das redes", com base no levantamento da ABF "Uso da IA pelas Redes de Franquias".

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