82% das empresas já usam IA sem aprovação — e só 3% estão prontas
O estudo SAP com Oxford Economics mostra que só 3% das empresas brasileiras estão prontas para escalar agentes de IA. Mas 82% dos colaboradores já usam ferramentas sem aprovação.
Entre as empresas brasileiras, 55% já pilparam casos de uso com agentes de IA e 26% das tarefas em já são apoiadas por inteligência artificial. Ao mesmo tempo, apenas 3% se dizem totalmente preparadas para implementar e escalar agentes de IA. E 82% dos colaboradores admitted usaram ferramentas de IA de terceiros sem aprovação formal da empresa, pelo menos ocasionalmente.
Quatro números de uma mesma pesquisa. Lidos em conjunto, formulam a pergunta que interessa a quem constrói produto: onde está, de fato, a lacuna?
A fonte, e o que ela é
Os dados vêm do estudo The Value of AI: Brazil 2026, realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics, e foram apresentados no SAP NOW AI Tour Brasil, em 9 de setembro de 2026. A pesquisa ouviu 2.600 líderes de negócios em 13 países, com 200 respondentes no Brasil.
Vale marcar duas coisas antes de usar qualquer número.
A primeira é que é um estudo contratado por uma empresa que vende ERP. O estudo tem um conflito de interesse comercial, e não é discreto: a conclusão de que "o ERP é o cérebro para a IA" é a tese comercial da SAP, dita em coletiva de imprensa do seu próprio evento, por seu presidente no Brasil. Os números podem estar certos e ainda assim servirem a um argumento de venda. Isso não os invalida — muda como devem ser lidos.
A segunda é o tamanho da amostra brasileira: 200 respondentes. Não é base para fechar percentuais em décimos, mas serve para a ordem de grandeza, que é o que interessa aqui.
O número que a manchete não usa
O card de origem traz o 3% como título. É o número que a SAP quer difundir, e é legítimo — mas conta só metade da história.
O outro número é o 82%. Ele diz que, em empresas que se preparam para escalar agentes ainda está em 3%, quase nove em cada dez empresas têm gente usando IA por conta própria. Não é adoção em fase de teste: é uso em produção, sem supervisão, sem inventário e sem aprovação.
E o estudo mede o que isso custa. Entre as empresas brasileiras:
- 50% relataram resultados inconsistentes ou imprecisos
- 43% apontaram vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual
- 32% citaram vulnerabilidades de segurança
- 31% mencionaram violações de compliance
Quatro em cada dez empresas brasileiras já têm, no próprio time, um problema de vazamento de dados causado por uso não supervisionado de IA. E nenhuma delas tem um inventário do que está rodando.
Onde está o bloqueio, segundo quem já tentou
Para quem já experimentou ou usa agentes de IA, o estudo pediu os principais desafios. Todos relataram pelo menos um. Os mais citados:
- Esforço de integração maior do que o esperado: 61%
- Aumento de problemas de confiabilidade ou qualidade conforme o uso e a escala: 54%
- Resultados inconsistentes entre equipes ou regiões para o mesmo processo: 45%
- Agentes tomando ações incorretas: 40%
- Dificuldade de reproduzir ou depurar o comportamento dos agentes: 39%
Repare o que não está na lista: falta de capacidade do modelo. Nenhum dos cinco principais itens da lista é algoritmo. São integração, observabilidade, consistência entre times e depuração — e o último item é o mais revelador de todos. Não dá para depurar um agente cujo comportamento você não consegue reproduzir, e um sistema que não se reproduz não se audita, não se corrige e não se aprova.
No nível da empresa inteira, a mesma lógica: 75% apontaram dados e disponibilidade de dados como o maior desafio, 65% citaram falta de expertise de quem usa, e 58% a ausência de alinhamento interno sobre o uso de IA.
E há um dado estrutural que explica boa parte do resto: 48% das empresas ainda adotam IA por projeto, projeto a projeto. Só 18% fazem uma abordagem estratégica e integrada — eram 6% um ano antes. Ou seja, o Brasil está migrando de projetos isolados para estratégia, mas a maioria ainda está no primeiro estágio.
O que isso significa para quem constrói software
A leitura óbvia seria: "as empresas precisam de agentes melhores". O estudo não sustenta isso, e o próprio estudo diz o contrário — o ERP é o ponto de partida, os dados são o gargalo, e a barreira número um é integração.
O produto que o número do 3% vende é plataforma. O que o número do 82% vende é outra coisa, e é mais concreta.
Primeiro: inventário. Nenhuma dessas empresas sabe quais ferramentas de IA seus colaboradores usam hoje. Sem inventário, não há como aprovar, medir, proteger dado nem auditar. Um produto que descobre e cataloga o uso de IA não autorizada dentro da empresa resolve um problema que o orçamento de segurança já reconhece e que ninguém está atendendo — porque cada empresa descobre na hora do incidente.
Segundo: a camada de supervisão. 40% relataram agentes tomando ações incorretas e 39% não conseguem reproduzir o comportamento. A resposta não é um agente mais confiável, é um agente auditável: log de decisão, explicação de por que fez o que fez, e reprodutibilidade do comportamento para que o erro possa ser diagnosticado e corrigido. É governança como software, não política em PDF.
Terceiro: a integração. Com 61% apontando esforço de integração acima do esperado, o valor está no conector — em hooking nos sistemas que a empresa já tem, não em pedir mais um sistema para operar.
E há uma quarta leitura, que é a mais reformista: 82% de uso não aprovado não é problema dos colaboradores. É falta de política que empurre a decisão para dentro da empresa. Empresa que não tem caminho formal deixa o caminho informal acontecer — e o caminho informal não tem log, não tem aprovação e não tem responsável. Construir o caminho formal é o produto.
Conclusão
A pergunta que a manchete do 3% sugere — "por que as empresas brasileiras não escalam agentes de IA?" — tem resposta, e ela não é sobre tecnologia.
É sobre integração, dados, observabilidade e decisão interna. E o número que o estudo de mercado não usou como título diz onde está o mercado real: 82% das empresas brasileiras já têm gente usando IA sem aprovação, e 50% delas já relatam resultado impreciso por causa disso.
Para o founder, a tese é simples e é menos glamourosa que a do card: não venda o agente. Venda a governança do agente. Inventário, aprovação, trilha e reprodutibilidade. É menos visível que um agente novo, resolve um problema que já está custando dinheiro a quem já usa IA, e tem uma janela: enquanto o mercado percentual de preparação é 3%, a ferramenta que resolve a preparação vira infraestrutura antes de virar commodity.
Fontes
- SAP: empresas brasileiras estão ávidas por usar mais IA — Convergência Digital, 9 de setembro de 2026: cobertura do SAP NOW AI Tour Brasil com os números do estudo The Value of AI: Brazil 2026 (SAP + Oxford Economics).
- The Value of AI: Brazil 2026 — SAP Research, página do estudo global (2.600 líderes, 13 países; 200 respondentes no Brasil).

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